Como o The Mars Volta deixou os fãs construírem seu novo álbum ao vivo

Análise exclusiva revela curadoria manual por trás de "Lucro Sucio: Unfinished Business", primeiro registro ao vivo da banda em 20 anos

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Redação The Music Mix

7/2/20265 min ler

No dia 9 de junho de 2026, o site oficial do The Mars Volta foi tomado por uma tela preta minimalista. Um botão discreto com a palavra "ENTER" redirecionava o público para o misterioso domínio ublsl.themarsvolta.com. Sem explicações, títulos ou contexto, a página exibia apenas um logotipo animado e um cronômetro em contagem regressiva.

Três semanas após o mistério, o mistério foi desfeito: o projeto era o prenúncio de Lucro Sucio; Unfinished Business, o primeiro álbum ao vivo oficial do grupo em mais de duas décadas, agendado para estrear nas plataformas digitais em 4 de setembro e em formato físico no dia 16 de outubro. A sigla secreta finalmente fazia sentido: Unfinished Business / Lucro Sucio / Live (UBLSL). O que a banda vendeu como uma democracia digital para escolher o repertório do disco, no entanto, escondia uma engenharia curatorial rígida e controlada de perto pelos músicos. O The Music Mix acompanhou o processo e destrinchou o código-fonte da página diariamente para entender como a experiência funcionou nos bastidores.

O arquivo de Omar e o problema da escolha

A raiz do projeto reside no preciosismo do guitarrista e produtor Omar Rodríguez-López. Desde 2004, Omar documenta e arquiva absolutamente todas as apresentações ao vivo do The Mars Volta. Após a turnê de 2025 — que contou com shows em arenas ao lado do Deftones e uma sequência de apresentações solo promovendo o álbum Lucro Sucio; Los Ojos Del Vacío —, o volume de fitas master acumulado tornou-se um problema geográfico. Em entrevista recente à revista norte-americana SPIN, Omar desabafou sobre o processo de seleção: "Acho que um bom ponto de partida é o contexto. A criação de um álbum ao vivo pode ser particularmente difícil para um projeto como o nosso, onde as performances e as expressões mudam muito de uma noite para outra. Torna-se uma questão de estados emocionais e sentimentos, e eles não oscilam de uma audição para outra. A informação em excesso se torna um problema prático. Gravei todos os shows desde 2004, então percebi que a abundância de material se transforma em escassez de opções."

A saída encontrada foi transferir o peso da decisão para a base de fãs através de um hotsite interativo durante 15 dias consecutivos, fragmentos de áudio de diferentes noites da turnê foram disponibilizados para votação popular. Para evitar que o bairrismo influenciasse o resultado, a banda substituiu os nomes das 26 cidades visitadas nos EUA e Canadá por símbolos geométricos enigmáticos na timeline do site — uma decisão tomada para garantir que o público focasse estritamente na qualidade técnica e emocional das performances, e não na nostalgia geográfica de onde o show havia acontecido.

Embora a interface entregasse uma experiência imersiva e multilíngue — abastecida com teasers quase diários no Instagram traduzidos para inglês, espanhol, japonês e alemão —, os bastidores do código revelaram que a votação popular funcionava mais como um termômetro estético do que como uma decisão soberana.

A análise técnica do The Music Mix identificou que a linha de código responsável por carimbar qual faixa seria considerada vencedora na votação, era alterada manualmente pela produção e ignorava os dados reais de cliques. Em pelo menos oito dos quinze dias de votação, a versão escolhida pela banda não foi a mais votada pelo público. O caso mais emblemático ocorreu no Dia 3, quando a performance vencedora havia ficado em último lugar na preferência dos usuários, com apenas 49 votos contra 209 do primeiro colocado.

A faixa mais tratada foi a número 9, uma suíte central do álbum que consumiu quatro dias consecutivos de votação com seções separadas — cada uma apresentando diferentes fragmentos de uma mesma composição estendida que, somada, ultrapassaria 17 minutos em sua forma completa. Foi o eixo gravitacional de todo o projeto.

No décimo dia, a votação foi diferente: em vez de áudio, os fãs escolheram entre três opções de arte para a capa do álbum. As três foram identificadas internamente como Art A, Art B e Art C. A opção A recebeu 230 votos. A B, 190. A C, apenas 150. A menos votada das três foi a escolhida pela banda.

O que esperar do novo álbum

Apesar da esperada interferência editorial, o projeto UBLSL cumpriu a missão de aproximar o público do vasto arquivo da banda, funcionando como uma peça de narrativa transmídia sofisticada. No último dia de votação, as opções de áudio traziam discursos de encerramento de shows na voz do vocalista Cedric Bixler-Zavala. Em uma delas, o cantor resumiu a filosofia que rege o Mars Volta há mais de 20 anos: "Você pode dizer aos seus amigos que eu vim e os vi quando eles estavam indo contra a corrente e queriam apenas fazer a si mesmos felizes". Era o epitáfio perfeito para um projeto construído exatamente assim.

Para Omar Rodríguez-López, o resultado final de Lucro Sucio; Unfinished Business, que tem como single de estreia a faixa "Cue the Sun / Alba del Orate", representa a versão definitiva do álbum de estúdio lançado no ano anterior. Na visão conceitual do grupo, o disco gravado em isolamento serve apenas como um rascunho de ideias. A obra real, de fato, só ganha vida e se completa quando é desconstruída e transformada em cima do palco, noite após noite.

Serviço – Cronograma de Lançamento

Nota do Editor - A revelação de que o The Mars Volta manipulou os resultados da votação do projeto UBLSL pode parecer frustrante à primeira vista para o fã mais fervoroso, mas, na verdade, faz todo o sentido dentro da mitologia e do controle artístico rígido que Omar Rodríguez-López exerce sobre o grupo. Omar e Cedric nunca foram artistas de concessões ou de seguir cartilhas de algoritmos. Utilizar uma ferramenta de engajamento tecnológico para forçar o público a ouvir com atenção minuciosa diferentes texturas de guitarra e improvisações de 17 minutos é, por si só, um ato de guerrilha pop brilhante. A votação pode ter sido uma ilusão de ótica digital, mas a imersão provocada na base de fãs foi real. No fim das contas, o público ganhou um vislumbre inédito dos bastidores de gravação de uma das bandas mais viscerais do rock progressivo do século XXI. A escolha de "Cue The Sun / Alba del Orate" como single não parece ser apenas uma coincidência genial já que a letra da música diz que: "They don't want you to know. They hide what you see." (Eles não querem que você saiba. Eles escondem o que você vê). A expressão 'Cue the Sun' é o comando icônico usado no filme 'O Show de Truman' para forçar um amanhecer artificial. Quando a letra dispara "They hide what you see..." a música deixa de ser apenas um rock moderno e passa a soar como a trilha sonora perfeita para a paranoia de viver em um mundo controlado. Coincidência ou genialidade?

Texto: Marcello Fim/The Music Mix

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