ESTE NÃO É O FIM #3 - O Mix que nunca termina: 15 anos de Hot Sauce Committee e a lição eterna dos Beastie Boys

No aniversário de 15 anos do último álbum, um mergulho nas memórias de um fotógrafo e colecionador sobre a banda que ensinou o verdadeiro significado de unidade, amizade e respeito.

ESTE NÃO É O FIM

Marcello Fim

5/3/20263 min ler

Os três integrantes dos Beastie Boys sentados no banco traseiro de um carro.
Os três integrantes dos Beastie Boys sentados no banco traseiro de um carro.

Em 3 de maio de 2011, os Beastie Boys lançavam seu oitavo álbum, Hot Sauce Committee Part Two. Originalmente planejado como um projeto em duas partes ainda em 2009, o disco foi atropelado pelo diagnóstico de câncer de Adam "MCA" Yauch. Embora não tenha sido concebido para ser o capítulo final, ele se tornou o testamento digno do trio de Nova York. Sem turnê ou divulgação massiva — algo impossível sem MCA, que nos deixaria exatamente um ano depois —, o álbum marcou o silêncio de uma era.

Curiosamente, este é o disco dos Beastie Boys que eu menos ouvi. É quase uma negação pelo luto, uma resistência em aceitar que nunca mais terei a chance de ver a banda que considero a melhor do mundo. Desde a primeira vez que ouvi "So What’Cha Want" no começo dos anos 90, senti como se Mike D, Ad-Rock e MCA fossem meus amigos ou irmãos mais velhos. A ideia de que não haveria mais nada novo deles foi devastadora.

Por causa deles, meu horizonte musical explodiu. Através de referências, samples, participações e dos lançamentos da gravadora Grand Royal, eles me apresentaram a um universo que eu jamais imaginaria habitar. Fui influenciado por cada camiseta que usavam e por cada banda que mencionavam em entrevistas.

Infelizmente, em 1995, eu era apenas um garoto de 15 anos e não tinha idade (ou permissão dos pais) para estar no memorável show do Olympia, em São Paulo. Mas o destino me reservou o dia 31 de outubro de 2006, na Pedreira Paulo Leminski, durante o TIM Festival. Foi uma noite inesquecível ao lado de Nação Zumbi, Patti Smith, Yeah Yeah Yeahs e DJ Shadow. Quando os então "engravatados" Beastie Boys subiram ao palco, a emoção transbordou: nos primeiros versos de "Triple Trouble", eu chorava feito criança, mal conseguindo enxergar o palco.

Ali, a performance do excelente DJ Mix Master Mike somava absurdamente ao trio, ele era o motor técnico que elevava cada batida, transformando o show em uma muralha de som. Vi Ad-Rock ganhar bolo e champanhe pelo seu aniversário e guardei cada uma das 19 músicas daquele setlist na memória.

Os Beastie Boys me ensinaram o verdadeiro significado de unidade. Um não existe sem o outro. Eles são a essência da amizade e do respeito por quem constrói a nossa história. Essa é a sensação, que dói e conforta, ao assistir ao documentário Beastie Boys Story. Ver Adam Horovitz e Mike D compartilhando a jornada deles é uma lição de vida e respeito ao que MCA fez pela banda.

Minha coleção pessoal conta com mais de 35 itens: livros, vinis, CDs, fitas VHS e até fotos exclusivas do show no Rio em 2006, presente do meu amigo Alexandre Schneider. Mas o impacto real deles na minha formação como editor e fotógrafo é incalculável. No The Music Mix, os Beastie Boys são a prova viva de que a mistura é atemporal.

Embora o brilho tenha sido guardado em caixas e o amigo tenha partido, o legado que construímos juntos não para aqui.

Porque, para nós, Este Não é o Fim.

Assinada por Marcello Fim, esta coluna é o lado mais autoral do The Music Mix. Aqui, o fotógrafo e editor compartilha suas obsessões musicais, relatos de bastidores de shows e descobertas (ou obsessões) recentes. O nome é um lembrete: enquanto houver um novo ritmo e um novo ângulo para fotografar, a música nunca para. ESTE NÃO É O FIM! é apenas o começo da nossa próxima conversa sobre som, ou tudo sobre nada e não tem periodicidade definida.

Foto: Martyn Goodacre