Gilberto Gil – Tempo Rei: A Crônica do Último Show da Turnê
Da passagem de som ao bis no Allianz Parque: o relato de quem viveu a despedida de Gilberto Gil das grandes turnês, do ponto de vista da grade
COBERTURA
Redação The Music Mix
4/1/20264 min ler


O dia 28 de março de 2026 ficará guardado para sempre. Era o dia de ir para o Allianz Parque cedo para curtir o último show da turnê Tempo Rei, do mestre Gilberto Gil. Chegamos por volta das 13h — o show seria apenas às 19h, mas eu e minha noiva garantimos o ingresso para o setor VIP Expresso 2222. Esse acesso nos permitia assistir à passagem de som, uma experiência que já tínhamos vivido em Curitiba, naquele gelado dia 5 de julho de 2025.
Entramos às 14h e garantimos nosso lugar na grade. Às 14h35, Gil entrou para o ensaio. Ele nos deu um "tchauzinho" meio tímido, mais contido. No início, parecia mais sério do que o normal. Talvez fosse a tensão por ser o último show de uma turnê tão gigantesca e importante: foram 1 milhão de fãs em 30 apresentações. Um número consistente e condizente com a importância de uma das vozes fundamentais da negritude e da ancestralidade na nossa música e sociedade. Gil não se despede dos palcos definitivamente, mas sim das grandes giras pelo Brasil e pelo mundo.
O Nervosismo dos Gigantes
Diferente do restante da turnê, que sempre contou com convidados consagrados de fora da família, este show final teve um caráter estritamente afetivo. Enquanto nas datas anteriores diversos artistas da música brasileira subiram ao palco, para o encerramento no Allianz o palco foi reservado apenas para o clã: Os Gilsons, Mãeana, Flor Gil e Bento Gil.Os Gilsons, Mãeana, Flor Gil e Bento Gil.
Às 19h30, o show começou com o repertório já conhecido. "Palco" abriu o setlist de mais de 30 músicas e quase 3 horas de duração. Como notei na passagem de som, o nervosismo não era impressão: Gil entrou na música diretamente nos primeiros versos, sem cantar a famosa introdução que a banda e os backing vocals executavam. Os gigantes também podem errar, é normal. O show estava apenas no início e prometia muito mais do que um mero deslize.
O Conforto em "Tempo Rei"
"Tempo Rei" foi a terceira música. É a canção que mais me emociona nos últimos anos por trazer um conforto necessário: “Transformai as velhas formas do viver / Ensinai-me, ó, Pai, o que eu ainda não sei” e essa parte da música me levaram às lágrimas contidas. Na sequência, um desfile de hits que qualquer brasileiro reconhece: "Domingo No Parque", "Cálice", "Procissão", "Refazenda". Entre uma e outra, Gil apresentava aos poucos a banda que o acompanhou durante esse ano de estrada.
A segunda parte trouxe a fase mais pop e reggae. O violão deu lugar à guitarra em "Vamos Fugir", "Realce" e "A Novidade". Mas foi "Punk da Periferia" que me trouxe lembranças dos anos 80, com aquele clipe clássico do Fantástico. O refrão é gostoso de cantar, mas carrega uma crítica forte ao descaso do Estado, das autoridades e da sociedade burguesa como um todo. Não é simples condensar 60 anos de carreira em um show só.
O Clã e a Homenagem à Preta
O show seguiu para o ato final com clássicos como "Drão" e as participações especiais: Mãeana e Francisco Gil em "Queremos Saber", Flor Gil em "Estrela" e "A Paz" com o neto Bento Gil no violão. Além de "Queremos Saber", outra novidade no repertório foi a versão para "Nossa Gente (Avisa Lá)", do Olodum, com participação d’Os Gilsons. O momento ganhou uma carga emocional ainda maior com a homenagem à Preta Gil, quando o mestre dedicou palavras de puro amor à filha: “Pretinha, lá, cá, cá ou lá, lá com você estaremos sempre”.
A partir daí o caminho foi para o final com "Aquele Abraço", e no bis o xote "Esperando na Janela" e o fechamento com "Toda Menina Baiana" e a tradicional chuva de papel picado que colocou o Allianz Parque lotado para pular e dançar, em uma celebração absoluta ao legado de Gilberto Gil.
O Ponto de Vista do Fã
Sem as amarras de um credenciamento oficial, a experiência é outra. Você sente o aperto, o calor, a lágrima do vizinho e o coro ensurdecedor que faz o estádio vibrar. Ver Gil sorrir ao observar os filhos e netos no palco, enquanto o telão exibe imagens de uma vida inteira dedicada à cultura, é entender que essa "aposentadoria" das turnês é apenas uma mudança de estado: de presença física para lenda viva permanente.
Estar presente em três datas da Tempo Rei foi uma experiência incrível. Estar com alguém que é muito mais fã do que eu torna tudo ainda mais rico e emocionante. Em breve, veremos Gil por outros palcos — com menor frequência, outra banda, outro repertório. Aqui no Brasil, a próxima parada deve ser o Rock in Rio em setembro, se a vontade do artista não mudar.
Que esse menino baiano continue nos ensinando, mais uma vez, sobre o tempo.
SETLIST – ALLIANZ PARQUE (28/03/2026)
Palco
Banda Um
Tempo Rei
Aqui e Agora (Mestrinho cover)
Eu Só Quero um Xodó (Dominguinhos cover)
Eu Vim da Bahia
Procissão
Domingo no Parque
Cálice
Back in Bahia (com intro de "Bat Macumba")
Refazenda
Refavela
Não Chore Mais (No Woman, No Cry)
Balafon
Extra
Vamos Fugir
Nos Barracos da Cidade
A Novidade
Realce
A Gente Precisa Ver o Luar
Punk da Periferia
Retiros Espirituais
Se Eu Quiser Falar com Deus
Drão
Queremos Saber (com Mãeana e Francisco Gil)
Estrela (com Flor Gil)
A Paz (com Bento Gil e Flor Gil)
Esotérico
Pipoca Moderna
Expresso 2222
Andar com Fé
Nossa Gente (Avisa Lá) (Olodum cover - com Gilsons - Dedicada à Preta Gil)
Êmoriô
Aquele Abraço
BIS
Esperando na Janela (Targino Gondim cover)
Toda Menina Baiana
Sítio do Pica-Pau Amarelo
Nota do Editor: Este texto possui caráter estritamente informativo e jornalístico, baseado em impressões pessoais do autor. Ressaltamos que o The Music Mix não solicitou credenciamento de imprensa para esta apresentação e o ingresso para o setor VIP Expresso 2222 foi adquirido de forma particular. A turnê Tempo Rei é uma realização da 30e em parceria com a GeGe Produções Artísticas.
Texto: Marcello Fim/The Music Mix - Foto: @pridiabr/Amanda Melo @amnndamelo
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