ESTE NÃO É O FIM #2 - Avenida em Foco: O transe entre o clique e o surdo de primeira

Cinzas para alguns, ressonância para outros. Relatos de uma cobertura onde o surdo de primeira ditou o ritmo do meu olhar

ESTE NÃO É O FIM

Marcello Fim

2/20/20262 min ler

TODO CARNAVAL TEM SEU FIM!
TODO CARNAVAL TEM SEU FIM!

Dizem que o ano no Brasil só começa depois da quarta-feira de cinzas, mas para quem vive a música, o tempo tem outra cadência. Enquanto o Sambódromo do Anhembi agora repousa em silêncio, pelo menos até sábado (21), o som das baterias ainda reverbera no meu sensor — tanto no da câmera quanto no da alma.

Se no meu último texto eu mergulhei no caos matemático e minimalista da Angine de Poitrine (aquela descoberta visceral da KEXP), os dois dias de cobertura do Grupo Especial das escolas de samba de São Paulo me trouxeram para o outro extremo do espectro: o caos organizado de mil vozes e centenas de instrumentos de percussão. São mundos distantes, mas que bebem da mesma fonte: o transe através do ritmo.

Lembrei-me muito, entre a correria da cobertura, um clique e outro no recuo da bateria e os milhares de passos e fotos ao longo do Sambódromo, dos meus tempos de vendedor na primeira década dos anos 2000. Naquela loja com tanta diversidade, eu também vendia os CDs com os enredos das escolas de samba e via as pessoas buscando a trilha sonora de seus carnavais.

Mas estar ali, sentindo o deslocamento de ar de um surdo de primeira a poucos metros da minha lente, é entender que a música é uma experiência física que nenhum encarte de CD consegue conter totalmente. A experiência de estar imerso num espetáculo que faz o país parar por alguns dias é única e empolgante do ponto de vista musical, mesmo que não esteja entre as minhas preferências habituais de fone de ouvido.

O ritmo da cobertura em um evento deste porte é intenso como o das baterias. A pressão é gigante como os carros alegóricos e as fantasias luxuosas. Afinal, é preciso lembrar que tudo ali é uma competição que conta pontos e vale um título, um trabalho de comunidades inteiras envolvidas em tudo o que vemos na TV ou in loco. E o principal de tudo: envolve muita emoção.

Todo ano, após o fim da cobertura, eu digo a mim mesmo que será a última vez. Mas, todos os anos, lá estou eu novamente, captando e condensando todo esse caldeirão de sentimentos em um frame — ou milhares deles.

Nesta coluna, registro que, embora a apuração tenha passado e o brilho tenha sido guardado em caixas, para o The Music Mix, este não é o fim...

Assinada por Marcello Fim, esta coluna é o lado mais autoral do The Music Mix. Aqui, o fotógrafo e editor compartilha suas obsessões musicais, relatos de bastidores de shows e descobertas (ou obsessões) recentes. O nome é um lembrete: enquanto houver um novo ritmo e um novo ângulo para fotografar, a música nunca para. ESTE NÃO É O FIM! é apenas o começo da nossa próxima conversa sobre som, ou tudo sobre nada e não tem periodicidade definida.

Fotos por Marcello Fim - @marcellofimfotografo