Lançamento: Angine de Poitrine e o impacto humano do "Vol. II"
A orquestra rock microtonal dada-pítago-cubista de Quebec entrega um disco denso, divertido e essencialmente real em tempos de algoritmos e IA
NOTÍCIASLANÇAMENTOS
Redação The Music Mix
4/4/20262 min ler
O The Music Mix estreia hoje sua seção dedicada aos últimos lançamentos com um destaque internacional de peso. A "orquestra rock microtonal dada-pítago-cubista" Angine de Poitrine, vinda diretamente de Quebec, acaba de colocar no mundo o seu aguardado Vol. II. O duo canadense, conhecido pela abordagem cirúrgica e caótica, entrega uma aula de música feita por humanos (será?) em tempos de inteligência artificial.
Falamos da banda aqui no começo de fevereiro, antes da avalanche de reacts e da viralização que alimentou a sanha de views nas redes. Se no primeiro volume o domínio de compassos compostos e loops já impressionava, no Vol. II o grupo mergulha em estruturas mais densas e pesadas. É o tipo de urgência que o rock necessita de tempos em tempos, fugindo da eterna balela de "salvação do estilo" — como se o rock fosse um ser moribundo de Walking Dead.
O Disco: Entre o Viral e o Inédito - O álbum abre com os singles já conhecidos "Fabienk" e "Mata Zyklek", além da onipresente "Sarniez", o vídeo já ultrapassa 7 milhões de views na session da KEXP. Mas é na segunda metade que o disco mostra a que veio.
Minhas impressões ao ouvir diversas vezes Vol. II é que a “Sarniez” de estúdio tem uma pegada um pouco mais funkeada do que a versão ao vivo, “Utzp” é a melhor do disco na minha opinião e já ouvi no repeat algumas vezes como agora ao escrever esse texto, soa como se uma banda de bluegrass tocasse polka russa, divertidamente estranha como o visual da dupla. “Yor Zarad” alterna passagens de jazz-core com explosões de distorção e fechando o disco vem “Angor” a única que não chega a empolgar tanto quanto as antecessoras, mas mantém a coesão. “Fabienk” e “Mata Zyklek” que abrem o disco é a ponte com o disco anterior para o novo lançamento.
Personagens e Identidade - Khn e Klek entraram profundamente no personagem de alienígenas obcecados por triângulos que falam uma língua própria. A música microtonal não é novidade — como críticos insistem em repetir —, mas a proposta aqui é o desconforto visual aliado à técnica. O mistério sobre a identidade da dupla (com ligações ao projeto La Poexe) e as aparições sem a fantasia completa só aumentam o folclore em torno do duo.
No fim das contas, o Vol. II se diferencia pela humanidade. É música técnica, suada e propositalmente desconfortável em um mar de produções artificiais. O fenômeno do Angine de Poitrine nos lembra que, por trás das máscaras e das teorias microtonais, existe o pulsar de quem cria com as mãos e com o risco. Eis a razão pela qual não podemos abrir mão de defender a cultura e os artistas, preservando-os em todas as suas formas, por mais improváveis que elas pareçam. Afinal, se você sentia um aperto no peito por falta de novidades reais, o duo de Quebec prova que essa "angina" musical tem cura — e ela é barulhenta, genial e visceralmente humana.
Sem dúvida, um dos grandes lançamentos do ano. Se você estava sentindo um aperto no peito por falta de novidades reais, o Angine de Poitrine chegou para mostrar que essa "angina" musical tem cura — e ela é barulhenta, microtonal e viciante.
Texto: Marcello Fim/The Music Mix - Capa por Arielle Corbeau @ariellecorbeau
Contato
Fale conosco para sugestões e parcerias
© 2025. All rights reserved.


